

Vinho orgânico ou biodinâmico: o que muda de verdade
Vinho biodinâmico ou orgânico? Os preparados, o calendário lunar, o que a ciência mediu em Geisenheim e se a diferença aparece na taça.

Vinho orgânico proíbe agrotóxicos e adubos químicos sintéticos. Vinho biodinâmico faz tudo isso e acrescenta preparados de esterco, sílica e ervas e um calendário que segue a Lua, segundo as ideias de Rudolf Steiner de 1924. Estudos, como os da universidade alemã de Geisenheim, mostram mais biodiversidade e menos produção, sem diferença comprovada na qualidade da uva.
Um chifre de vaca cheio de esterco, enterrado no outono e desenterrado na primavera.
É assim que começam alguns dos vinhos mais respeitados do mundo. Para uns, é feitiçaria de lua cheia. Para outros, é a forma mais completa de cuidar de um vinhedo. O vinho biodinâmico divide sommeliers, cientistas e agricultores há cem anos.
A pergunta que interessa a quem compra é mais simples: o que muda de verdade entre um vinho orgânico e um biodinâmico? E essa diferença chega até a taça?
O vinho orgânico: o que não entra
O vinho orgânico se define principalmente pelo que fica de fora. Nada de agrotóxicos sintéticos, nada de adubos químicos solúveis, nada de transgênicos. No lugar deles entram composto, adubação verde (plantas semeadas entre as fileiras para alimentar o solo), controle biológico de pragas e produtos de origem natural, como cobre e enxofre, em doses limitadas.
No Brasil, a agricultura orgânica tem lei desde 2003 e selo oficial, o do SisOrg. Já explicamos os detalhes no artigo vinho orgânico, biodinâmico ou natural.
O vinho biodinâmico: o que entra a mais
O vinho biodinâmico respeita todas as regras do orgânico e acrescenta uma visão inteira de mundo.
Tudo começou entre 7 e 16 de junho de 1924, em Koberwitz, então na Alemanha, hoje Kobierzyce, na Polônia. Ali, o filósofo austríaco Rudolf Steiner deu oito palestras para um grupo de 111 agricultores preocupados com a perda de vitalidade do solo. A ideia central: a propriedade agrícola é um organismo vivo, que deve produzir o próprio adubo, manter os próprios animais e funcionar em ciclo fechado.
Daí vêm os famosos preparados, numerados de 500 a 508:
| Preparado | O que é | Para que serve, segundo a biodinâmica |
|---|---|---|
| 500 | Esterco de vaca fermentado dentro de um chifre enterrado no inverno | Vida do solo e das raízes |
| 501 | Quartzo moído fermentado num chifre enterrado no verão | Luz, maturação, folhas |
| 502 a 507 | Milefólio, camomila, urtiga, casca de carvalho, dente-de-leão e valeriana | Ativar o composto |
| 508 | Chá de cavalinha | Prevenir fungos |
Os preparados 500 e 501 são diluídos em água, agitados por cerca de uma hora num ritmo que alterna os sentidos do redemoinho e borrifados em doses mínimas, de poucos gramas a algumas centenas de gramas por hectare.
E tem o calendário. A partir de 1952, a agricultora alemã Maria Thun passou décadas fazendo ensaios no campo e criou o calendário biodinâmico mais conhecido. Ele divide os dias em dias de raiz, de folha, de flor e de fruto, conforme a posição da Lua diante das constelações. Muitos viticultores biodinâmicos podam, colhem e engarrafam seguindo essas datas.
Há até quem marque degustações em dia de fruto e jure que o vinho fica mais expressivo. Os céticos lembram que, num teste às cegas, ninguém sabe que dia é.
A diferença numa tabela
| Vinho orgânico | Vinho biodinâmico | |
|---|---|---|
| Origem | Movimento orgânico do século XX | Palestras de Rudolf Steiner, 1924 |
| Agrotóxicos e adubos químicos | Proibidos | Proibidos |
| Preparados 500 a 508 | Não exige | Obrigatórios |
| Calendário lunar | Não usa | Usa como guia |
| Visão da propriedade | Sistema de produção | Organismo vivo em ciclo fechado |
| Regra no Brasil | Lei nº 10.831/2003, selo SisOrg | Sem regra oficial, certificação privada |
O que a ciência mediu
Aqui vale olhar para a Alemanha. Na Universidade de Geisenheim, uma das escolas de vinho mais tradicionais do país, fundada em 1872, pesquisadores liderados por Johanna Döring, hoje professora da instituição, cultivaram Riesling lado a lado em três sistemas: integrado (convencional cuidadoso), orgânico e biodinâmico.
Os resultados, publicados em 2015 na revista PLOS ONE, foram claros. As parcelas orgânicas e biodinâmicas produziram cerca de 38% a 39% menos uva que as integradas, entre 2010 e 2012, e sofreram mais com o míldio (um fungo que ataca as folhas). Mas a qualidade da fruta, medida em açúcar, acidez e pH, não mudou. E entre orgânico e biodinâmico não houve diferença de produção: os preparados influenciaram pouco o crescimento das videiras. Döring et al., PLOS ONE, 2015
Em 2019, a mesma pesquisadora e colegas revisaram 84 estudos do mundo inteiro no American Journal of Enology and Viticulture. Em média, os vinhedos orgânicos e biodinâmicos produziram 18% menos e cresceram 21% menos que os convencionais. Em compensação, em 17 de 24 estudos a biodiversidade aumentou de forma clara, e a vida microbiana do solo cresceu depois da conversão. Na composição da uva e na qualidade do vinho, a revisão não encontrou diferenças gerais. Döring et al., AJEV, 2019
Traduzindo: o solo e os bichos agradecem. A balança da produção reclama. E a taça, segundo a ciência, fica onde estava.
Então vale a pena?
Depende do que você busca.
Se a pergunta é sabor, não existe prova de que um vinho biodinâmico seja melhor só por ser biodinâmico. Se a pergunta é o vinhedo, a resposta muda: mais biodiversidade, solo mais vivo, nenhum agrotóxico sintético. E tem um efeito que nenhum estudo mede bem. Quem enterra chifre, prepara chá de cavalinha e consulta a Lua passa muito mais tempo no meio das videiras. Esse olhar de perto costuma aparecer no vinho.
O preço também conta. Produzir menos por hectare custa caro, e isso aparece na etiqueta.
Bom saber: a biodinâmica também existe no Brasil, fora do mundo do vinho. A Embrapa publicou em 2013 um documento técnico sobre citricultura biodinâmica, e a agricultura biodinâmica é praticada no país desde os anos 1970. Embrapa, Citricultura Biodinâmica
E a TUQANO?
Vou ser honesto: não somos certificados, nem orgânicos nem biodinâmicos. E não seguimos o calendário de Maria Thun.
Aqui no Tapajós, quem manda é outro calendário: o do rio. As cheias e as vazantes, o tempo das chuvas, o mês em que cada fruta amadurece. Os nossos cupuaçuzeiros crescem no Clos Tapajós, em Alter do Chão, sem adubo químico e sem nenhum agrotóxico, no ritmo da floresta ao redor.

Na adega, seguimos a mesma ideia de deixar a natureza trabalhar. Os nossos vinhos fermentam com leveduras selvagens de um vinhedo renomado de Meissen, multiplicadas de forma artesanal há 90 anos, em ânforas de terracota em forma de ovo em formato de ovo. Sem sulfitos adicionados e sem nenhum conservante. Steiner falava da propriedade como organismo. A gente prefere pensar no vinho como algo vivo, que só precisa de tempo e de pouca interferência. Mais detalhes na nossa adega.
Chifre de vaca, a gente não enterra. Mas o resto, cá entre nós, não está tão longe assim.
Prove o Vinho de Cupuaçu da TUQANO
Aprecie com moderação. Venda proibida para menores de 18 anos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre vinho orgânico e biodinâmico?
O vinho orgânico proíbe agrotóxicos sintéticos, adubos químicos solúveis e transgênicos. O biodinâmico segue todas essas regras e acrescenta os preparados 500 a 508, feitos de esterco, quartzo e ervas, e um calendário que acompanha a Lua. A biodinâmica vê a propriedade como um organismo vivo em ciclo fechado.
O que é vinho biodinâmico?
É o vinho de uvas cultivadas segundo a agricultura biodinâmica, criada a partir de oito palestras de Rudolf Steiner em Koberwitz, em junho de 1924. Usa preparados como o chifre de esterco (500) e o chifre de sílica (501) e um calendário de dias de raiz, folha, flor e fruto, desenvolvido por Maria Thun.
Vinho biodinâmico é melhor?
Não há prova científica de que seja mais saboroso. Um estudo da Universidade de Geisenheim, na Alemanha, não encontrou diferença na qualidade da uva entre os sistemas integrado, orgânico e biodinâmico. Uma revisão de 84 estudos, de 2019, mostrou mais biodiversidade e menos produção nos vinhedos orgânicos e biodinâmicos.
O que são os preparados biodinâmicos?
São nove preparados numerados de 500 a 508. O 500 é esterco fermentado num chifre de vaca enterrado no inverno. O 501 é quartzo moído fermentado num chifre no verão. Do 502 ao 507 são ervas como milefólio, camomila, urtiga, casca de carvalho, dente-de-leão e valeriana, usadas no composto. O 508 é um chá de cavalinha.
O que é o calendário biodinâmico?
É um calendário que divide os dias em dias de raiz, de folha, de flor e de fruto, conforme a posição da Lua diante das constelações. Foi desenvolvido pela agricultora alemã Maria Thun a partir de ensaios iniciados em 1952. Muitos viticultores biodinâmicos podam, colhem e engarrafam seguindo essas datas.
Existe vinho biodinâmico no Brasil?
Sim, alguns produtores brasileiros trabalham com biodinâmica. No Brasil não há regulamento oficial para o termo: a certificação biodinâmica é privada. Para usar a palavra orgânico no rótulo, o vinho precisa também da certificação orgânica oficial, com o selo do SisOrg.
Os vinhos da TUQANO são biodinâmicos?
Não. A TUQANO não tem certificação orgânica nem biodinâmica. Os cupuaçuzeiros do Clos Tapajós, em Alter do Chão, são cultivados sem adubo químico e sem agrotóxicos, e os vinhos fermentam com leveduras selvagens em ânforas, sem sulfitos adicionados e sem conservantes.