Garrafa do Vinho de Açaí TUQANO, tinto seco natural da Amazônia

Vinho orgânico, biodinâmico ou natural: qual a diferença?

Vinho orgânico, biodinâmico, natural ou convencional? O que cada palavra garante no rótulo, o que diz a lei brasileira e como escolher bem.

Vinho orgânico vem de cultivo sem agrotóxicos sintéticos e, no Brasil, é o único dos quatro termos com lei e selo oficial (SisOrg). Biodinâmico segue a agricultura de Rudolf Steiner, com certificação privada. Natural é feito com o mínimo de intervenção na adega, sem regra legal. Convencional segue as práticas permitidas pela legislação.

Orgânico. Biodinâmico. Natural. Sustentável. Vegano. O rótulo de vinho virou um outdoor.

Só que, no Brasil, apenas uma dessas palavras tem lei, selo oficial e fiscalização. O resto depende da palavra de quem faz o vinho. E da sua capacidade de fazer as perguntas certas.

Aqui vai o mapa: o que significa vinho orgânico, biodinâmico, natural e convencional, o que cada termo garante de verdade e o que ele não garante.

Vinho convencional: o padrão da indústria

Vinho convencional é o vinho feito dentro das práticas que a legislação permite, sem nenhum compromisso extra. É a imensa maioria das garrafas do mundo.

No vinhedo, ele pode usar adubos químicos, herbicidas e fungicidas sintéticos. Na adega, tem à disposição dezenas de práticas e substâncias autorizadas: leveduras selecionadas, correção de acidez, enzimas, taninos em pó, clarificantes, filtração estéril e sulfitos. No Brasil, o limite de dióxido de enxofre (o sulfito, protetor clássico do vinho) chega a 350 mg/L. Na União Europeia, o teto para um tinto convencional é de 150 mg/L e para um branco, de 200 mg/L.

Convencional não é sinônimo de ruim. Muito vinho excelente é convencional. O objetivo da indústria é outro: que a garrafa tenha o mesmo gosto em março e em outubro, em qualquer prateleira do país. Para isso, a adega usa as ferramentas que tem.

Vinho orgânico: o selo cuida do campo

Vinho orgânico é vinho feito com uvas cultivadas sem agrotóxicos sintéticos, sem adubos químicos solúveis e sem transgênicos.

No Brasil, essa é a palavra com mais proteção. A Lei nº 10.831, de 2003, regulamentada pelo Decreto nº 6.323, de 2007, exige que todo produto vendido como orgânico passe por um dos três mecanismos de controle: certificação por auditoria, sistema participativo de garantia ou, para a agricultura familiar que vende direto ao consumidor, uma organização de controle social. Nos dois primeiros casos, o produto recebe o selo oficial do SisOrg, o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica. Lei nº 10.831/2003, Planalto

Agora, o detalhe que pouca gente conhece. O regulamento técnico dos orgânicos em vigor, a Portaria MAPA nº 52, de 2021, traz regras detalhadas para o cultivo e listas de substâncias permitidas no campo. Mas não tem um capítulo próprio para a vinificação. Na prática, o selo orgânico brasileiro garante principalmente como a uva foi cultivada. O que acontece depois, na adega, depende de cada produtor. Portaria MAPA nº 52/2021

A Europa foi mais longe. Desde 2012, o vinho orgânico europeu também tem regras de adega: no máximo 100 mg/L de sulfitos nos tintos e 150 mg/L nos brancos e rosés, e práticas como o uso de ácido sórbico (um conservante) proibidas. Regulamento (UE) nº 203/2012

Bom saber: vinho feito com uvas orgânicas e vinho orgânico certificado não são a mesma coisa. No rótulo brasileiro, a palavra orgânico só pode aparecer com o selo ou com a garantia de um dos três mecanismos oficiais.

Vinho biodinâmico: o vinhedo como um organismo

Vinho biodinâmico é vinho de uvas cultivadas segundo a agricultura biodinâmica, que vai além do orgânico e trata a propriedade como um organismo vivo.

A ideia nasceu na Alemanha, em 1924, nas palestras do filósofo austríaco Rudolf Steiner para agricultores. Na prática, o viticultor biodinâmico usa preparados próprios: o mais famoso é o chifre de vaca recheado com esterco e enterrado durante o inverno, depois diluído em água e espalhado pelo solo em doses mínimas. Outro leva sílica moída, borrifada sobre as folhas. As tarefas no vinhedo seguem um calendário que considera os ritmos da Lua e dos astros.

No Brasil, não existe regulamento oficial para a biodinâmica. A certificação é privada, feita por associações internacionais. E um vinho biodinâmico só pode se chamar orgânico no rótulo se também tiver a certificação orgânica oficial.

E funciona? A ciência ainda discute. Um estudo num vinhedo de Merlot na Califórnia, publicado em 2005 no American Journal of Enology and Viticulture, comparou parcelas orgânicas com e sem os preparados biodinâmicos. O solo e as folhas não mostraram diferenças. As uvas biodinâmicas tiveram um pouco mais de açúcar, de fenóis e de antocianinas, mas a diferença foi pequena. Já o equilíbrio entre produção e vigor das videiras ficou melhor nas parcelas biodinâmicas. Reeve et al., AJEV, 2005

Ou seja: os efeitos medidos são modestos. Mas quem cuida de um vinhedo como se fosse um organismo costuma cuidar de tudo com mais atenção. E isso, nenhum laboratório precisa provar.

Vinho natural: a adega de mãos quase vazias

Vinho natural é vinho feito com o mínimo de intervenção, principalmente na adega: leveduras selvagens, nenhum aditivo e quase nada retirado.

Não existe lei para vinho natural no Brasil. Nem na maioria dos países. O exemplo mais avançado vem da França, onde a carta Vin Méthode Nature, reconhecida pelas autoridades francesas em 2020, exige uvas orgânicas certificadas, colheita manual, só leveduras nativas e, no máximo, 30 mg/L de sulfitos adicionados.

Se o orgânico cuida do campo e a biodinâmica do organismo inteiro, o natural cuida do que acontece depois da colheita. Por isso os termos se combinam: um vinho pode ser orgânico e convencional na adega, ou natural sem ter selo nenhum. Explicamos isso em detalhe no artigo o que são vinhos naturais.

A diferença numa tabela

Termo no rótuloTem lei no Brasil?O que controlaQuem garanteSulfitos
ConvencionalSim, as regras gerais do vinhoAs práticas permitidasO Ministério da AgriculturaAté 350 mg/L
OrgânicoSim, Lei nº 10.831/2003Principalmente o cultivoSelo SisOrg ou controle socialSem regra própria de adega no Brasil
BiodinâmicoNãoO vinhedo como organismoCertificadoras privadasDepende da certificadora
NaturalNãoPrincipalmente a adegaA palavra do produtorZero ou mínimo adicionado

O que diz a ciência sobre o sabor

A pergunta que todo mundo faz: orgânico é mais gostoso?

Em 2016, os pesquisadores Magali Delmas, Olivier Gergaud e Jinghui Lim analisaram as notas de 74.148 vinhos da Califórnia, de 1998 a 2009, dadas por três das principais publicações de vinho do mundo. Os vinhos com certificação ecológica tiveram notas estatisticamente mais altas que os convencionais. Journal of Wine Economics, 2016

Isso não prova que o selo melhora o vinho. Pode ser que os produtores mais cuidadosos sejam justamente os que buscam o selo. Mas é um bom sinal de que cuidado no campo e qualidade na taça andam juntos.

Como ler o rótulo sem cair no marketing

Cinco perguntas que valem mais que qualquer adjetivo:

  • Tem selo oficial? Para orgânico, procure o selo do SisOrg.
  • Tem sulfitos adicionados? E quanto, se o produtor souber dizer.
  • Que leveduras fermentaram o vinho? Selvagens ou selecionadas.
  • O vinho foi filtrado ou clarificado? E com o quê.
  • De onde vem a fruta? Quem cultiva e como.

Produtor sério responde sem gaguejar. Produtor de outdoor muda de assunto.

Onde a TUQANO fica nesse mapa

Vou ser direto: a TUQANO não tem selo orgânico. Prefiro dizer isso aqui a deixar você imaginar.

Os nossos cupuaçuzeiros crescem no Clos Tapajós, o lugar onde eles vivem em Alter do Chão, sem adubo químico e sem nenhum agrotóxico. Na adega, ficamos perto do natural: leveduras selvagens de um vinhedo renomado de Meissen, multiplicadas de forma artesanal há 90 anos, fermentação em ânforas de terracota em forma de ovo, nenhum sulfito adicionado, nenhum conservante. A única concessão é uma filtração leve antes do engarrafamento, porque no calor amazônico é ela que garante que a garrafa chegue estável até você. A história completa está na nossa adega.

Garrafa do Vinho de Açaí TUQANO, tinto seco sem sulfitos adicionados, feito em Alter do Chão
O Vinho de Açaí da TUQANO: leveduras selvagens, ânforas e nenhum conservante.

Nem convencional, nem natural de manual. É o que a fruta e o clima pedem, contado sem enfeite.

O rótulo pode continuar sendo um outdoor para muita gente. O nosso prefere ser uma conversa.

Prove o Vinho de Açaí da TUQANO

Aprecie com moderação. Venda proibida para menores de 18 anos.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre vinho orgânico, biodinâmico e natural?

Vinho orgânico vem de uvas cultivadas sem agrotóxicos sintéticos e, no Brasil, tem lei e selo oficial. Biodinâmico segue a agricultura de Rudolf Steiner, com preparados e calendário próprios, e tem certificação privada. Natural é feito com o mínimo de intervenção na adega, sem regra legal. Os três podem se combinar.

O que é vinho orgânico no Brasil?

É o vinho de uvas cultivadas sem agrotóxicos sintéticos, adubos químicos solúveis ou transgênicos, controlado por um dos mecanismos da Lei nº 10.831/2003. O selo oficial é o do SisOrg. O regulamento técnico atual, a Portaria MAPA nº 52/2021, não traz regras próprias para a vinificação.

Vinho orgânico tem sulfito?

Pode ter. Na União Europeia, o vinho orgânico pode ter até 100 mg/L de sulfitos nos tintos e 150 mg/L nos brancos, contra 150 e 200 mg/L nos convencionais. No Brasil, o limite geral do vinho é de 350 mg/L, e o regulamento orgânico não define um limite próprio de adega.

O que é vinho biodinâmico?

É o vinho de uvas cultivadas segundo a agricultura biodinâmica, criada a partir das palestras de Rudolf Steiner em 1924. O vinhedo é tratado como um organismo vivo, com preparados de esterco e de sílica e um calendário que segue os ritmos da Lua. No Brasil, a certificação biodinâmica é privada.

Vinho natural tem certificação?

No Brasil, não. Não existe lei nem selo oficial para vinho natural. Na França, a carta Vin Méthode Nature, reconhecida em 2020, exige uvas orgânicas, leveduras nativas e no máximo 30 mg/L de sulfitos adicionados. Fora disso, vale a transparência de cada produtor.

Vinho orgânico é mais gostoso?

Não há garantia, mas há indícios. Um estudo de 2016 com 74.148 vinhos da Califórnia mostrou que os vinhos com certificação ecológica receberam notas mais altas da crítica especializada. Os autores lembram que produtores mais cuidadosos tendem a buscar o selo.

Os vinhos da TUQANO são orgânicos?

A TUQANO não tem certificação orgânica. Os cupuaçuzeiros do Clos Tapajós, em Alter do Chão, são cultivados sem adubo químico e sem agrotóxicos. Na adega, os vinhos fermentam com leveduras selvagens em ânforas de terracota, sem sulfitos adicionados e sem conservantes, com uma filtração leve antes do engarrafamento.

Lars Nehrig
Lars Nehrig
Lars Nehrig é mestre de adega e fundador da TUQANO Vinícola, a primeira vinícola de Alter do Chão, Pará. Formado em biotecnologia com especialização em química de alimentos, aplica método científico à vinificação artesanal de frutas nativas da Amazônia, fermentadas com leveduras históricas da Saxônia. Conheça nossa história →

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